domingo, 23 de fevereiro de 2020

RESISTIR

Nunca fui boa o suficiente em nada.
Não passei no vestibular de medicina.
Não mantive nenhum relacionamento por mais de 2 ou 3 anos.
Nunca escrevi uma obra prima.
Todos se acham especiais mas nunca foi isso que pensei da minha vida.
Ao contrário,desde cedo me achava uma idiota,e apesar da petulância e das golas rolês e brincos de crucifixo, nunca me senti digna de nada que parecesse lisonjeador ou admirável.Fui me acostumando com uma sucessão de intempéries e a maternidade me causou uma mudança comportamental me tornando mais madura e estoica.
Conforme a passagem do tempo me cansei e apesar da resignação à uma vida meia boca de horário comercial,marmitas e contagem de moedas parei de me explicar aos outros.
Entro e saio atravessando as paredes como uma alma penada
Sorrio aqui e ali porque viver é uma comédia e busco no humor uma solução peremptória pra toda essa desgraça.
Depois de 42 anos de vida me sinto um pouco quebrada e acho que estou mais pra lado lá do que pra cá .
Não faço planos,não tenho objetivos mas mesmo assim não me sinto deprimida nem sinto vontade de me matar. Ao contrario,gostaria de viver anos mesmo que levando essa vida anônima cheia de dissabores e dificuldades porque sempre invento algo pra fazer e isso é curioso.
Um bolo de chocolate,um armário pra arrumar,sexo com um estranho,literatura de terror.Estou lendo Drácula e não venderia minha alma a nenhum demônio por reconhecimento ou vida eterna.
Mas esta semana fui acometida por uma enxaqueca.
Talvez vendesse a alma pra não sentir dores físicas. As dores psicológicas nem as sinto mais.
Entro e saio do meio das chamas,como uma alma penada.
Caminho sobre as brasas,danço abraçada ao fogo.E não me queimo mais a toa.
burn burn burn e retorno todos os dias das cinzas para vida.
Como uma fênix flamejante.
Sei que não sou totalmente imprestável.
Aprendi a fazer uma série de coisas; observar é a principal delas.
Observo com afinco tudo ao meu redor e noto dissonâncias Vivo praticamente numa distopia.Politicas neo liberais são implementadas todos os dias e vejo pobres as legitimando.Vivo em um mundo catatônico,pessoas lobotomizadas,trabalhadores subalternos,procrastinadores da própria vida,Eu por exemplo.Me atenho de modo tão decente e sistemático as regras que transformei minha vida num torvelinho de insatisfações e descrenças.Acato as ordens sem questiona-las mas me recuso solenemente a dividir os espólios dessa guerra.Ela é a minha guerra particular.
Tenho meu próprio pais na distopia,um território vasto e exuberante de habilidades físicas e vícios frenéticos.
Tanta gente dorme nas ruas e talvez graças a minha disposição ao proletariado eu saiba evitar a penúria total.
O fato é que o que tenho é isso,o aqui e agora pós todas as coisas.
Só a vontade e a disposição que eu nem sei de onde nascem mas ainda estão aí dando um soco na cara da platéia.



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