sábado, 29 de agosto de 2020

O que pode Salomé?

Eu era muito jovem quando escrevi meu primeiro poema mas uma mulher não pode,uma mocinha não deve escrever coisas escandalosas, com 16 anos uma mocinha não pode sentar de pernas abertas,tem que estar sempre alerta,sem beber no copo de ninguém,nada de drogas,álcool promiscuidade,uma mocinha nesta idade,não pode vomitar em público,amar demais da conta, pagar peitinhos, uma menina não pode se meter com vagabundos, deixar que os outros lhe toquem as partes íntimas do corpo,a intimidade de uma garota não pode ser exposta num diário rosa,uma vida chiaroscuro in natura não pode ser vivida por uma menina sem que a chamem de desequilibrada,lhe acusem de histeria,lhe façam lobotomia num grande manicômio federal,uma mocinha não sai no jornal como grande mentora intelectual,como a mais poderosa prostituta de Satiricon,nossa Bruna Surfistinha,uma menina só deve coser bainhas,cozinhar ovos e nunca entregar numa bandeja de prata a cabeça de João Batista.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

PROPOSIÇÂO

A palavra não tem tempo ruim

Move mares

Desce pelos ares

Inflama a retina

Te tira da sina,te lança na rima

E perde o fio da meada.

O verbo,não é cilada

Mira em riste e segue reto rumo à uma composição

Faz a gente perder a razão

Não te deixa quieto na hora de dormir

Puxa as orelhas do poeta que estava prestes a desistir

E faz uma festa na minha cabeça.

Não é mais possível

na praça

quem diria

vida louca,loucas necessidades de nada

como aceitar

compreender

processar

quando em outros anos,verdes anos, muitos cheiros

a vida era mais real

sem as grandes impossibilidades,só as mesmas impossibilidades

eram mais próximas

de algo palpável

de algo palatável

de sonhos e futuros sci-fi

faz meu bem, aquela tua cara,aquela tua voz

esboça um dos teus novos velhos gestos

tanto faz agora no novo normal

o preto no branco

chiaroscuro

a vida se passando nos próximos capítulos

novela da vida

novelo de interrogações

tudo mudou,menos a arritmia do meu coração

solidão sempre foi a tônica dominante

outro instante?

na festinha, nossos grilos,cerveja e rocknroll

o que determina o amor?

o tempo? a distância? a velocidade da luz?

essa máscara que não mais nos seduz

uma pandemia e outras possibilidades.


domingo, 9 de agosto de 2020

Eu escrevo na entressafra

Entre um cigarro e outro

No espaço aonde não caberiam dois corpos ao mesmo tempo

Escrevo por contenção

Na beira das portas da percepção 

Para dizer o sim e o não.

Na noite volátil aonde já rolaram a lua e o vinho

Eu escrevo porque este é o meu caminho

Não é sobre eu e você

É sobre eu e ela (a poesia)

Da janela,espasmos e luzes na cidade 

A cada ano  que avança (a minha idade),

Eu escrevo para passar a dor

Enquanto esvazio  taças cheias .

A Saber

É sempre a mesma farra do boi,
Sempre a mesma gastura
Me enche de ternura,pra depois me apunhalar
Cansei das tuas coisinhas jogadas no meu chão de taco
Teu cheiro de talco,tua voz de locutor
Cansei meu amor
Já era tarde,tava mais do que na hora
Pediu pra ir embora
Teu mel com agrião,veneno enjoo suspirado com chá de boldo sobre nossas ressacas
Tsunamis de amor,chega dessa dor!
Cansei das interfaces pálidas,das surpresas ruins
Do sexo meia boca,tua língua tão impura
Cansei da luxúria escarlate(devora-me mas não me mate)
Escalada triunfal da nossa derrota particular
Hoje não tem jantar, é cada um na sua casa
Como nunca deveria ter deixado de ser
Não mais engulo em silêncio,a saber.

AMOR PRÓPRIO


Escrevo trinta poemas insossos 
Trinta poemas,nenhum do seu gosto

Compro um estetoscópio (quero ouvir seu coração)
Um escapulário (aquela especie de rosário) 
Mando plantar para ti, um roseiral
Te chamo pro feriado de Natal
Hey querido,mil incensos pra você
Traduzir Júpiter Apple pra você
Nada adianta,você não quer me ver
Escrevo e rimo
Rimo e rumino
Sobre o lixo espacial
As noticias do jornal,
nossa ultima transa

Escrevo trinta poemas em aramaico,iídiche,sânscrito
Nenhum encanto é capaz de te ater 
Então vou mandar se foder

Escrevo trinta poemas e rasgo,jogo tudo no lixo com jornal,espaço e o caralho a quatro
Faz quatro dias que te esqueço
Desapego,apreço
Mais por mim que por você.