Eu era muito jovem quando escrevi meu primeiro poema mas uma mulher não pode,uma mocinha não deve escrever coisas escandalosas, com 16 anos uma mocinha não pode sentar de pernas abertas,tem que estar sempre alerta,sem beber no copo de ninguém,nada de drogas,álcool promiscuidade,uma mocinha nesta idade,não pode vomitar em público,amar demais da conta, pagar peitinhos, uma menina não pode se meter com vagabundos, deixar que os outros lhe toquem as partes íntimas do corpo,a intimidade de uma garota não pode ser exposta num diário rosa,uma vida chiaroscuro in natura não pode ser vivida por uma menina sem que a chamem de desequilibrada,lhe acusem de histeria,lhe façam lobotomia num grande manicômio federal,uma mocinha não sai no jornal como grande mentora intelectual,como a mais poderosa prostituta de Satiricon,nossa Bruna Surfistinha,uma menina só deve coser bainhas,cozinhar ovos e nunca entregar numa bandeja de prata a cabeça de João Batista.
sábado, 29 de agosto de 2020
quinta-feira, 27 de agosto de 2020
PROPOSIÇÂO
A palavra não tem tempo ruim
Move mares
Desce pelos ares
Inflama a retina
Te tira da sina,te lança na rima
E perde o fio da meada.
O verbo,não é cilada
Mira em riste e segue reto rumo à uma composição
Faz a gente perder a razão
Não te deixa quieto na hora de dormir
Puxa as orelhas do poeta que estava prestes a desistir
E faz uma festa na minha cabeça.
Não é mais possível
na praça
quem diria
vida louca,loucas necessidades de nada
como aceitar
compreender
processar
quando em outros anos,verdes anos, muitos cheiros
a vida era mais real
sem as grandes impossibilidades,só as mesmas impossibilidades
eram mais próximas
de algo palpável
de algo palatável
de sonhos e futuros sci-fi
faz meu bem, aquela tua cara,aquela tua voz
esboça um dos teus novos velhos gestos
tanto faz agora no novo normal
o preto no branco
chiaroscuro
a vida se passando nos próximos capítulos
novela da vida
novelo de interrogações
tudo mudou,menos a arritmia do meu coração
solidão sempre foi a tônica dominante
outro instante?
na festinha, nossos grilos,cerveja e rocknroll
o que determina o amor?
o tempo? a distância? a velocidade da luz?
essa máscara que não mais nos seduz
uma pandemia e outras possibilidades.
domingo, 9 de agosto de 2020
Eu escrevo na entressafra
Entre um cigarro e outro
No espaço aonde não caberiam dois corpos ao mesmo tempo
Escrevo por contenção
Na beira das portas da percepção
Para dizer o sim e o não.
Na noite volátil aonde já rolaram a lua e o vinho
Eu escrevo porque este é o meu caminho
Não é sobre eu e você
É sobre eu e ela (a poesia)
Da janela,espasmos e luzes na cidade
A cada ano que avança (a minha idade),
Eu escrevo para passar a dor
Enquanto esvazio taças cheias .A Saber
É sempre a mesma farra do boi,
Sempre a mesma gastura
Me enche de ternura,pra depois me apunhalar
Cansei das tuas coisinhas jogadas no meu chão de taco
Teu cheiro de talco,tua voz de locutor
Cansei meu amor
Já era tarde,tava mais do que na hora
Pediu pra ir embora
Teu mel com agrião,veneno enjoo suspirado com chá de boldo sobre nossas ressacas
Tsunamis de amor,chega dessa dor!
Cansei das interfaces pálidas,das surpresas ruins
Do sexo meia boca,tua língua tão impura
Cansei da luxúria escarlate(devora-me mas não me mate)
Escalada triunfal da nossa derrota particular
Hoje não tem jantar, é cada um na sua casa
Como nunca deveria ter deixado de ser
Não mais engulo em silêncio,a saber.