“Nada importa,nem eu,nem você, nem esta conversa…só importa o desenvolvimento dos temas”.
Foi com esta frase que Eurípides desfigurou a primeira lancinante flechada no coração de Suzi.
Suzi queria ser escritora,era do interior, e isso não lhe dava créditos em relação às cosmopolitas desinibidas da capital.
Suzi devorava um pacote de biscoitos de mel que encontrara em sua bolsa, enquanto ouvia aquelas frases desconexas que saiam da boca de Eurípides.Eram 11:30 da manhã e os dois acordaram devidamente vestidos,um na cama,outro esturricado no sofá.
“Me desculpe incomodá-lo, mas viu um sapato roxo igual a esse por aí” disse Suzi
“Vi não, você é engraçada , parece alguém falando num seriado de tv americana.”-respondeu Eurípides.
Pobre Suzi, sempre tão preocupada em ser boazinha começava agora a trilhar um caminho de desenganos,a cavar um calvário mais profundo do que a solidão.
Amar alguém que não lhe ama,como um Werther furioso vertendo sobre si mesmo o recalque dos que não são amados lhe parece masoquismo, meu amigo? É romântico? Assustador?
Pois bem não se faça de rogado e observe serenamente como Suzi age desde tenra idade.Observe o suave desenrolar da própria vida, o splim dos tempos e perceberás caro amigo, que não só Werther mas Suzi também alimentara um amor impossível e se deixara levar até as ultimas consequências por ele.
Há amores impossíveis como o de Romeu e Julieta, que estão fadados ao insucesso por circunstancias externas à vontade deles próprios.O casal de pombinhos simplesmente se quer, mas não se pode ter, por ação de terceiros.
Não era o caso de Suzi e Eurípides. Suzi vivia longe o suficiente da família para que não a perturbassem com honra,moral e outras imposiçõezinhas estúpidas,e Eurípides era órfão de pai e mãe.
Pobre garotinho criado por aquela tia velha e ranzinza.Pelo menos ela lhe era generosa nas finanças e Eurípides, beirando os 30 anos de idade, nunca necessitara se preocupar com dinheiro(tinha as horas vagas para dedicar-se à bebida e literatura.)Fora isso crescera enfurnado entre o ócio e as faxineiras do casarão no subúrbio.
Quando criança sonhava coisas normais, que todo menino sonha: ser astronauta,bailarino, policial.Mas já na adolescência uma nuvem cinza e imponentemente poderosa passou à acompanha-lo sem descanso,dia e noite,numa brincadeira desastrada e medonha de gato e rato.E movido pela fúria da literatura Eurípides tornou-se um misantropo,uma espécie de pária de si mesmo.Não tinha telefone nem mantinha nem um relacionamento com pessoas que se mantivessem fora dos bares, salvo médicos e atendentes de supermercado,por razões lógicas fáceis de serem compreendidas.
A vida era boa assim, sem mulher para encher o saco,sem grandes amigos.Sozinho e já bastante mal acompanhado,era o lema de Eurípides.
Para que mais? Cachorro? Secretária? Namorada? Não, era capaz de cuidar de seus afazeres domésticos sozinho e se precisasse podia utilizar os serviços de uma das funcionarias do lar que sua tia mantinha. Profissionalmente também evitava o contato humano.Tivera um agente , uma vez, Afobório da Mata,mas o tique nervoso de Afobório(ele piscava sem parar, numa incoerência disrítmica com os reflexos do corpo) o irritava como o olho com catarata do velho irritava seu algoz no conto obscuro de Allan Poe.E antes que,como o louco de “ O coração denunciador”, cometesse um desatino contra o pobre Afobório, Eurípides decidiu cuidar ele mesmo de seus livros e publicações, aliás de excelente qualidade, mas raramente reconhecidos e totalmente inviáveis do ponto de vista comercial.Essa era a questão mais crucial da vida de Eurípides. Obcecado pela literatura,ele gastava a olhos vistos a herança que Tia Maura herdara do marido, ex agrônomo de uma conhecida empresa de cigarros.
Suzi e Eurípides se conheceram (se é que se conheceram) naquela manhã, na sala de Eurípides.Despediram-se brevemente após constatarem que estiveram juntos em uma festa na noite anterior.Constrangida porque não lembrava exatamente como fora parar ali, Suzi tratou logo de catar seus sapatos e dar um “vazare” daquele apartamento empoeirado,cheio de livros velhos e garrafas de cerveja vazias.Na parede do hall de entrada uma imagem singela enterneceu Suzi: Humphrey Bogart e Ingrid Bergmann em um cartaz preto e branco de Casa Blanca.
Seria o prólogo de um amor não correspondido.