sábado, 19 de setembro de 2020

DE VOLTA À CIDADE

 Estou correndo contra todas as noções de tempo/espaço

Sozinha na fruição do mundo como vontade e representação

Buscando alguma coisa, para sim para não

Preparada para todas as idiossincrasias (minhas) e dos outros,

Esperando o aparecimento da placa “só para loucos”,

Hesse nas veias enquanto encho uma bolsa de 500 ml de sangue no Hemorio

Bram Stoker fazendo transfusões pelas mãos de Van Helsing

A literatura vampirizando todas as minhas possibilidades,

O calor das grandes cidades…

Alho e óleo

Medo e delírio no Rio de Janeiro

Todo mundo querendo sua fatia do bolo (ou o bolo inteiro)

Procurando alguém que ouça mais do que fale (alguém que se cale)

Tentando se estabelecer.

Talvez recomece a chover

Ah, esse cheiro avassalador da natureza!

Mosquitos e zumbidos

Girassóis e vagalumes cegos, confundindo ao invés de explicar

Voando acima do mar

Sob as cidades sonhadas por Italo Calvino,

Todas tão imperfeitas !

Mas a imperfeição tem algo de belo e lúcido…

Por isso a poesia biodegradável de Piva se faz necessária

A anti poesia de Parra

A redoma de vidro de Plath,

Uma tarde em uma biblioteca…

Tantas vezes, tantas vezes, tantas luzes que refletem no espelho chumbo da Bahia de Guanabara com suas sereias eivadas, primas de Netuno

Tantas vezes, tantas vezes, tantas tardes na cidade de enxofre e aço, eu já soube os nomes das ruas e me perdi em tantas outras

Foi tanto que me deixei levar pela cidade pólvora e suas promessas de fogos de artificio…

Nela, meu oficio, sempre foi ganhar a vida e perder grandes amores.

sábado, 29 de agosto de 2020

O que pode Salomé?

Eu era muito jovem quando escrevi meu primeiro poema mas uma mulher não pode,uma mocinha não deve escrever coisas escandalosas, com 16 anos uma mocinha não pode sentar de pernas abertas,tem que estar sempre alerta,sem beber no copo de ninguém,nada de drogas,álcool promiscuidade,uma mocinha nesta idade,não pode vomitar em público,amar demais da conta, pagar peitinhos, uma menina não pode se meter com vagabundos, deixar que os outros lhe toquem as partes íntimas do corpo,a intimidade de uma garota não pode ser exposta num diário rosa,uma vida chiaroscuro in natura não pode ser vivida por uma menina sem que a chamem de desequilibrada,lhe acusem de histeria,lhe façam lobotomia num grande manicômio federal,uma mocinha não sai no jornal como grande mentora intelectual,como a mais poderosa prostituta de Satiricon,nossa Bruna Surfistinha,uma menina só deve coser bainhas,cozinhar ovos e nunca entregar numa bandeja de prata a cabeça de João Batista.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

PROPOSIÇÂO

A palavra não tem tempo ruim

Move mares

Desce pelos ares

Inflama a retina

Te tira da sina,te lança na rima

E perde o fio da meada.

O verbo,não é cilada

Mira em riste e segue reto rumo à uma composição

Faz a gente perder a razão

Não te deixa quieto na hora de dormir

Puxa as orelhas do poeta que estava prestes a desistir

E faz uma festa na minha cabeça.

Não é mais possível

na praça

quem diria

vida louca,loucas necessidades de nada

como aceitar

compreender

processar

quando em outros anos,verdes anos, muitos cheiros

a vida era mais real

sem as grandes impossibilidades,só as mesmas impossibilidades

eram mais próximas

de algo palpável

de algo palatável

de sonhos e futuros sci-fi

faz meu bem, aquela tua cara,aquela tua voz

esboça um dos teus novos velhos gestos

tanto faz agora no novo normal

o preto no branco

chiaroscuro

a vida se passando nos próximos capítulos

novela da vida

novelo de interrogações

tudo mudou,menos a arritmia do meu coração

solidão sempre foi a tônica dominante

outro instante?

na festinha, nossos grilos,cerveja e rocknroll

o que determina o amor?

o tempo? a distância? a velocidade da luz?

essa máscara que não mais nos seduz

uma pandemia e outras possibilidades.


domingo, 9 de agosto de 2020

Eu escrevo na entressafra

Entre um cigarro e outro

No espaço aonde não caberiam dois corpos ao mesmo tempo

Escrevo por contenção

Na beira das portas da percepção 

Para dizer o sim e o não.

Na noite volátil aonde já rolaram a lua e o vinho

Eu escrevo porque este é o meu caminho

Não é sobre eu e você

É sobre eu e ela (a poesia)

Da janela,espasmos e luzes na cidade 

A cada ano  que avança (a minha idade),

Eu escrevo para passar a dor

Enquanto esvazio  taças cheias .

A Saber

É sempre a mesma farra do boi,
Sempre a mesma gastura
Me enche de ternura,pra depois me apunhalar
Cansei das tuas coisinhas jogadas no meu chão de taco
Teu cheiro de talco,tua voz de locutor
Cansei meu amor
Já era tarde,tava mais do que na hora
Pediu pra ir embora
Teu mel com agrião,veneno enjoo suspirado com chá de boldo sobre nossas ressacas
Tsunamis de amor,chega dessa dor!
Cansei das interfaces pálidas,das surpresas ruins
Do sexo meia boca,tua língua tão impura
Cansei da luxúria escarlate(devora-me mas não me mate)
Escalada triunfal da nossa derrota particular
Hoje não tem jantar, é cada um na sua casa
Como nunca deveria ter deixado de ser
Não mais engulo em silêncio,a saber.

AMOR PRÓPRIO


Escrevo trinta poemas insossos 
Trinta poemas,nenhum do seu gosto

Compro um estetoscópio (quero ouvir seu coração)
Um escapulário (aquela especie de rosário) 
Mando plantar para ti, um roseiral
Te chamo pro feriado de Natal
Hey querido,mil incensos pra você
Traduzir Júpiter Apple pra você
Nada adianta,você não quer me ver
Escrevo e rimo
Rimo e rumino
Sobre o lixo espacial
As noticias do jornal,
nossa ultima transa

Escrevo trinta poemas em aramaico,iídiche,sânscrito
Nenhum encanto é capaz de te ater 
Então vou mandar se foder

Escrevo trinta poemas e rasgo,jogo tudo no lixo com jornal,espaço e o caralho a quatro
Faz quatro dias que te esqueço
Desapego,apreço
Mais por mim que por você.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

NO COMEÇO E NO FIM, O QUE É O AMOR PARA MIM

AMOR:
Fresta estreita entre duas montanhas íngremes
Lapso no tempo/espaço
Falha na matrix
Tesão que se pretende explicação
Para Lacan o que não é possível
Para Platão,o indizível
Movimento centrípeto dos corpos que aumenta os batimentos cardíacos e arrepia os pelos do corpo,
Fundi a cuca e me faz sugar até a última gota
Depois parte e me mata de
AMOR.

NOSSO UNIVERSO EM DESENCANTO

Você não me ligou
Mas talvez tenha me observado de longe
Vai saber...
Para além de dois e dois existe cinco
E quem poderá me deter nessa odisséia david bowiana
Enquanto espero o metrô com meus fones de ouvidos
Enquanto espero que você me mande um zap,um email,um sinal de fumaça,estoure fogos ou exploda um iceberg na Groenlândia sem deixar feridos.
Só a beleza da natureza,e o nosso amor.
Dois mil e um anos até chegar a nossa hora
Mas cada um sabe de si
E sabe quando tem que ir embora.
Poemas,palavras para todos os lados.
Eu segura em algum apartamento
O lado de fora da terra é a Via Láctea
Vagamos soltos e a esmo no universo
O único verso
A que sou fiel
É minha loucura
Mas nada dura
Mudam as estações (outro equinócio)
Acabam as ilusões (nada disso é nosso)
E o telefone nunca mais toca.

LEMBRANÇAS IMPREGNADAS


Tem um quadro na galeria que me lembra você
Como o cheiro de Patchuli (nunca o de Sândalo)
Tem uns dias (só os dias em que chove) que me lembram você
Você me parece um esforço inútil da natureza rumo à perfeição
Tem um carinho seu, que me tira a razão (principalmente se estiver rolando a voz sacana do Leonard Cohen como musica de fundo)
A gente é um roteiro que nunca foi escrito (e falo daquela noite em que a gente se perdeu...)
Existe uma historia mínima entre você e eu
Uma citação filosófica em meio à pornografia
Um lençol que teima em sair da cama,
Um silencio que ecoa entre a gente,depois que a gente se ama.
Eu já dormi com tanta gente...
Mas nunca com aviões de carreira cruzando o céu tão baixo
Nunca sob a ameaça dos vizinhos e da vovó,
Nunca me sentindo no final tão só.
Tem um vento que sopra e me lembra você
E tem essa vontade de resgatar as horas perdidas
Reviver essa estrada bifurcada
Todos os sonhos suspensos no jardim das delicias
Tudo e nada com você
Até raiar o dia !
Nem um minuto a mais
Nem um segundo a menos
Gozos e determinações cronometradas.
Existe um estado das coisas em que tudo se altera
Nesse momento,te vejo partir através da janela
Deixas pra trás meia duzia de palavras em francês(tua sedução ao pé do ouvido)
E minha disposição para ser otária...
Tem a nossa história,
Que dura exatamente uma penca de noites
Um punhado de solidões
E se passa nessa cidade imensa,impregnada de desencontros e luzes desejosas.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

DÚVIDA

Ao fim e ao cabo, estaremos enterrando a pós vanguarda?
Não existem mais possibilidades de ser?
Limitados à tela do celular,ainda temos algum sentimento?
Pulsamos a verve da historia,
Chegamos à beira de um ataque de nervos,
e é isso que chamamos civilização ?
Pergunto aos meus iguais que tem fast food e Netflix:
aprendemos afinal a ser feliz?

RENEGAR

Por que?Para quem?Eu queria nunca mais escrever
Porque escrever faz parecer que tem algum sentido
Porque escrever carece de amenizar a dor e ainda vem com todo aquele papo da arte
Arte pra quê?

Padres e freiras sentem um chamado,
Escritores só se metem em confusão de todos os tipos(com mafiosos, prostitutas, cafetões e viciados,com perdedores e mal amados)
Escritores de verdade querem bagunça e gente muito doida que volta e meia vai parar na Pinel
Cansei de escrever,de colar com maluco
Por que isso,oh Deus que nem existe?
Por que esta necessidade de consubstanciar esses sentimentos mais perdidos que cego em tiroteio?

Quem vai ler,quem se importa?
Tudo vai acabar em um parágrafo bobo
Num beco sem saída
Esse é o prefacio de quem com febre escreve,é o seu bem vindo à vida.

EXCERTO ANTI-POÉTICO

eu agora me liberto porque sei que venci
não porque eu seja melhor
nem porque eu tenha queimado a largada.
mas só porque toda noite eu rogo, para que no tête à tête da literatura e da poesia ,
ela clame
e eu inflame
ela trema
e eu gema.
ela chore
e eu gargalhe.

PRÓLOGO DE UM AMOR NÃO CORRESPONDIDO

“Nada importa,nem eu,nem você, nem esta conversa…só importa o desenvolvimento dos temas”.

Foi com esta frase que Eurípides desfigurou a primeira lancinante flechada no coração de Suzi.

Suzi queria ser escritora,era do interior, e isso não lhe dava créditos em relação às cosmopolitas desinibidas da capital.

Suzi devorava um pacote de biscoitos de mel que encontrara em sua bolsa, enquanto ouvia aquelas frases desconexas que saiam da boca de Eurípides.Eram 11:30 da manhã e os dois acordaram devidamente vestidos,um na cama,outro esturricado no sofá.

“Me desculpe incomodá-lo, mas viu um sapato roxo igual a esse por aí” disse Suzi

“Vi não, você é engraçada , parece alguém falando num seriado de tv americana.”-respondeu Eurípides.

Pobre Suzi, sempre tão preocupada em ser boazinha começava agora a trilhar um caminho de desenganos,a cavar um calvário mais profundo do que a solidão.

Amar alguém que não lhe ama,como um Werther furioso vertendo sobre si mesmo o recalque dos que não são amados lhe parece masoquismo, meu amigo? É romântico? Assustador?

Pois bem não se faça de rogado e observe serenamente como Suzi age desde tenra idade.Observe o suave desenrolar da própria vida, o splim dos tempos e perceberás caro amigo, que não só Werther mas Suzi também alimentara um amor impossível e se deixara levar até as ultimas consequências por ele.

Há amores impossíveis como o de Romeu e Julieta, que estão fadados ao insucesso por circunstancias externas à vontade deles próprios.O casal de pombinhos simplesmente se quer, mas não se pode ter, por ação de terceiros.

Não era o caso de Suzi e Eurípides. Suzi vivia longe o suficiente da família para que não a perturbassem com honra,moral e outras imposiçõezinhas estúpidas,e Eurípides era órfão de pai e mãe.

Pobre garotinho criado por aquela tia velha e ranzinza.Pelo menos ela lhe era generosa nas finanças e Eurípides, beirando os 30 anos de idade, nunca necessitara se preocupar com dinheiro(tinha as horas vagas para dedicar-se à bebida e literatura.)Fora isso crescera enfurnado entre o ócio e as faxineiras do casarão no subúrbio.

Quando criança sonhava coisas normais, que todo menino sonha: ser astronauta,bailarino, policial.Mas já na adolescência uma nuvem cinza e imponentemente poderosa passou à acompanha-lo sem descanso,dia e noite,numa brincadeira desastrada e medonha de gato e rato.E movido pela fúria da literatura Eurípides tornou-se um misantropo,uma espécie de pária de si mesmo.Não tinha telefone nem mantinha nem um relacionamento com pessoas que se mantivessem fora dos bares, salvo médicos e atendentes de supermercado,por razões lógicas fáceis de serem compreendidas.

A vida era boa assim, sem mulher para encher o saco,sem grandes amigos.Sozinho e já bastante mal acompanhado,era o lema de Eurípides.

Para que mais? Cachorro? Secretária? Namorada? Não, era capaz de cuidar de seus afazeres domésticos sozinho e se precisasse podia utilizar os serviços de uma das funcionarias do lar que sua tia mantinha. Profissionalmente também evitava o contato humano.Tivera um agente , uma vez, Afobório da Mata,mas o tique nervoso de Afobório(ele piscava sem parar, numa incoerência disrítmica com os reflexos do corpo) o irritava como o olho com catarata do velho irritava seu algoz no conto obscuro de Allan Poe.E antes que,como o louco de “ O coração denunciador”, cometesse um desatino contra o pobre Afobório, Eurípides decidiu cuidar ele mesmo de seus livros e publicações, aliás de excelente qualidade, mas raramente reconhecidos e totalmente inviáveis do ponto de vista comercial.Essa era a questão mais crucial da vida de Eurípides. Obcecado pela literatura,ele gastava a olhos vistos a herança que Tia Maura herdara do marido, ex agrônomo de uma conhecida empresa de cigarros.

Suzi e Eurípides se conheceram (se é que se conheceram) naquela manhã, na sala de Eurípides.Despediram-se brevemente após constatarem que estiveram juntos em uma festa na noite anterior.Constrangida porque não lembrava exatamente como fora parar ali, Suzi tratou logo de catar seus sapatos e dar um “vazare” daquele apartamento empoeirado,cheio de livros velhos e garrafas de cerveja vazias.Na parede do hall de entrada uma imagem singela enterneceu Suzi: Humphrey Bogart e Ingrid Bergmann em um cartaz preto e branco de Casa Blanca.

Seria o prólogo de um amor não correspondido.

RESISTIR

Nunca fui boa o suficiente em nada.
Não passei no vestibular de medicina.
Não mantive nenhum relacionamento por mais de 2 ou 3 anos.
Nunca escrevi uma obra prima.
Todos se acham especiais mas nunca foi isso que pensei da minha vida.
Ao contrário,desde cedo me achava uma idiota,e apesar da petulância e das golas rolês e brincos de crucifixo, nunca me senti digna de nada que parecesse lisonjeador ou admirável.Fui me acostumando com uma sucessão de intempéries e a maternidade me causou uma mudança comportamental me tornando mais madura e estoica.
Conforme a passagem do tempo me cansei e apesar da resignação à uma vida meia boca de horário comercial,marmitas e contagem de moedas parei de me explicar aos outros.
Entro e saio atravessando as paredes como uma alma penada
Sorrio aqui e ali porque viver é uma comédia e busco no humor uma solução peremptória pra toda essa desgraça.
Depois de 42 anos de vida me sinto um pouco quebrada e acho que estou mais pra lado lá do que pra cá .
Não faço planos,não tenho objetivos mas mesmo assim não me sinto deprimida nem sinto vontade de me matar. Ao contrario,gostaria de viver anos mesmo que levando essa vida anônima cheia de dissabores e dificuldades porque sempre invento algo pra fazer e isso é curioso.
Um bolo de chocolate,um armário pra arrumar,sexo com um estranho,literatura de terror.Estou lendo Drácula e não venderia minha alma a nenhum demônio por reconhecimento ou vida eterna.
Mas esta semana fui acometida por uma enxaqueca.
Talvez vendesse a alma pra não sentir dores físicas. As dores psicológicas nem as sinto mais.
Entro e saio do meio das chamas,como uma alma penada.
Caminho sobre as brasas,danço abraçada ao fogo.E não me queimo mais a toa.
burn burn burn e retorno todos os dias das cinzas para vida.
Como uma fênix flamejante.
Sei que não sou totalmente imprestável.
Aprendi a fazer uma série de coisas; observar é a principal delas.
Observo com afinco tudo ao meu redor e noto dissonâncias Vivo praticamente numa distopia.Politicas neo liberais são implementadas todos os dias e vejo pobres as legitimando.Vivo em um mundo catatônico,pessoas lobotomizadas,trabalhadores subalternos,procrastinadores da própria vida,Eu por exemplo.Me atenho de modo tão decente e sistemático as regras que transformei minha vida num torvelinho de insatisfações e descrenças.Acato as ordens sem questiona-las mas me recuso solenemente a dividir os espólios dessa guerra.Ela é a minha guerra particular.
Tenho meu próprio pais na distopia,um território vasto e exuberante de habilidades físicas e vícios frenéticos.
Tanta gente dorme nas ruas e talvez graças a minha disposição ao proletariado eu saiba evitar a penúria total.
O fato é que o que tenho é isso,o aqui e agora pós todas as coisas.
Só a vontade e a disposição que eu nem sei de onde nascem mas ainda estão aí dando um soco na cara da platéia.



DE SACO CHEIO

Um espirito solitário e incompreendido,assim que me sinto.
Podem dizer o que quiserem:
Ególatra,megalomaníaca,diferentona.
Podem dizer que exponho demais minha vida nas redes sociais e que sou pouco letrada na vida acadêmica (que consumiu a mente de uma meia duzia que conheço)
Acontece que não sou adepta a seitas.
Meu pensamento voa tépido como um gavião planador e está sempre querendo fazer um bico como poeta.
Onde eu errei? Me digam?
Sou subserviente demais,desapegada demais e passo a sorte dando os presentes que ganho.Quero agradar e até deixo os outros me darem conselhos.
No fundo sou fraca,uma morsa amedrontada à beira mar,sucumbindo a tempestade .
Faço o tipo que fala pelos cotovelos e quando vê já estou chorando.
Não sou uma charlatã,ao contrário,eu acho que arruinei minha vida no capitulo que tentei ser eu mesma excessivamente.
O golpe fatal foi quando me dediquei a leitura de Schopenhauer e Nietzsche e desde que o mundo é mundo os pais culpam as drogas,as leituras e os amigos por nossas desventuras.
Dados e gráficos estatísticos dizem que pessimistas vivem com menor qualidade de vida,porém estão menos expostos à acidentes.
Fatos confirmam que eu sempre troco os pés pelas mãos mas no final dá tudo certo.
No entanto 2019 nem começou e já tá dando tudo errado.
E infeliz de quem que vier dizer "pensamento positivo"ou falar em boas energias.
Essas são as desculpas que alguns inventaram pra se sentirem melhor.
Aceitem,tem gente que nasce desgraçado na vida.Não é o meu caso porque não sou afortunada mas tenho inteligencia e coerência acima da media,ao contrário de muitos ineptos que não tem a mínima consciência do mundo.Esse é exatamente meu trunfo. Mas talvez ninguém vá me entender,só não me venham com lições de moral ou sugestões quânticas,não preciso de banho de mar nem de meditação, preciso é que o mundo acorde.
Na onda mágica do universo eu surfo mais que todos juntos então não deem desculpas frívolas para inutilidade humana nem para indiferença da maioria.
Ninguém ta nem aí e todos sabem disso mas preferem dar curso ao baile de máscaras.
Que assim seja então,já podem se abraçar para em seguida meterem os caninos nas jugulares uns dos outros.
Saibam que não me enternece ganhar tapinhas nas costas por"correr atrás","batalhar",ter"integridade", tudo que no fundo é só mais uma desculpa pra manter cada um no seu lugar e tudo na mais completa ordem de privilégios.
As vezes as pessoas morrem de saco cheio e isso não é ruim.A morte na verdade só fez esse favor para elas.

NOTURNA SOLIDÃO

Leve como uma pena,a mão cata a caneta e
a mágica se faz
Um pequeno poema sobre o eterno,
Sobre o mundo e seus devires mais absolutos.
Um instante de ascese
num único suspiro místico
Toda a revelação...ou não.
Só deponho no momento pela vida,breve,verdadeira,derradeira.
Só suspendo um momento a respiração...
O ônibus enfim parte
Estou indo aplacar esses anseios em casa.Qualquer casa,alguma casa,a casa essencial.
Lua,sol,dias que se sobrepõem
Noites de danação,tédio ou delírio.
O brilho,dos teus olhinhos tão infames e malditos
Me inspiram e me fazem flutuar
Mas essa noite não tem luar
E eu estou sozinha.

TUDO TEM LIMITES

Sou uma escritora sem computador e aparentemente obcecada e atormentada.
Fiz tatuagens que me arrependo sendo algumas delas símbolos misticos,pois já fui religiosa e acredito,inclusive,que minha vida se desenvolveu bastante nesse período. No entanto hoje sou absolutamente cética e alem de me orgulhar disso ataco abertamente as religiões,as pseudociências e as tais "crenças milenares"que de milenares na maioria das vezes só tem o mau caratismo dos charlatões.
É fácil inventar uma pseudociência e utilizar indiscriminadamente os termos "milenar"ou "energias" é um dos pilares para o seu sucesso.Charlatões conseguem qualquer coisa e os charlatões que acreditam em suas próprias besteiras são os mais profícuos e bem sucedidos.Mas isso não significa que não irão conseguir ajeitar a vida dos desesperados arrumando prosperidade financeira,sexo de boa qualidade,longevidade e todas essas outras coisas tão estimadas por nós,reles mortais.Alguns poderão dizer que não são essas satisfações que buscam e sim equilíbrio e paz de espirito e aí lhes direi que é mais fácil tentar dinheiro e sexo do que paz de espirito,ao menos para mim.
Como disse sou uma pessoa atormentada e até certo ponto me lisonjeio por isso porque talvez tenha me tornado uma pessoa menos desinteressante que a maioria por conta deste meu espirito inconformado e febril.
Alterno neuroticamente meus humores mas de modo geral sempre mantenho o coração aberto e sinto uma compaixão tão violenta pelo mundo que uma criança mendigando no metrô pode estragar absolutamente meu dia inteiro se este estiver começando.
Não tenho apegos materiais...nada é meu...levem tudo...roupas,livros,dinheiro.Só não levem minha paciência porque aí já era.

QUANDO O AMOR ACABA


-Jordão você é uma pessoa insipida e sem graça.Tenta angariar algum fã criando polêmica mas só consegue fazer inimizades.
-E você Amanda? Se acha tão superior,tão especial.Não passa de uma pobretona vira latas. Só porque leu meia duzia de livros fica arrotando essas abobrinhas existencialistas que ninguém se importa.Você não sabe dirigir,não fala inglês,nunca saiu nem vai sair do Brasil.
-Com dinheiro do papai é mole né água de salsicha? Quero ver ficar um mês sem mesada,vai minguar de fome seu mauricinho.Você é um desmilinguido Jordão,uma hipocondríaco chato e burgues que ninguém atura.Isso que você é.
-Melhor que ser uma egocêntrica recalcada e looser."A artista maldita".Se enxerga Amanda,ninguém vai descobrir esse seu grande talento abscondido porque ele tá tão escondido que nem Deus encontra.

O ÚLTIMO A SAIR APAGA A LUZ

Sou nômade
Nômade e subversiva
Subversiva e descontente
Mas do meu descontentamento sempre nasce uma flor
Sou nômade e rio na hora errada,escrevo de ressaca
Compro na liquidação de natal e me arrependo.
O tempo,esse senhor categórico, pai das quatro estações,está sempre convergindo para o aparecimento de sulcos na pele e indisposições físicas pela manhã.
Mesmo assim resisto,preciso de café,preciso de dinheiro e um pouco mais de desespero para escrever uma boa peça de teatro.

Cena 1 -Sala de jantar:
Eu sabia que você não ia ficar comigo,eu sabia, mas duvidava da tua ingratidão
espantalho medonho, parado em frente à cristaleira,debruçado sob minhas penas,pernas entreabertas aonde ainda existe uma nascente de água pura e prazeres
Eu sabia,um dia ia desaguar
a vida não é plena,coisas ruins acontecem, manifestações artísticas são proibidas nos vagões de metrô,crianças adoecem.
Eu sabia que você me lançaria na escuridão,e fiquei lá,esperando até a última hora.